segunda-feira, 23 de maio de 2016

Demasiadas perguntas com os olhos.

Ela trás uma blusa de riscas.As calças em azul escuro, justas ao corpo, dão-lhe um ar sensual, que se intensifica quando acompanhadas das sandálias de tacão alto, que definitivamente lhe dão  um andar seguro.

À hora combinada ela chega. Traz na mão um envelope com duas fotos dela. São fotos de há bastante tempo atrás. Ele ainda não chegou e ela sai por uns instantes, deixando em cima da mesa o envelope.

São ternos os olhos dele, enquanto olha as fotos já na sua mão.Ela volta  e pergunta, "Conheces?" Ele ri-se e diz-lhe que sim, sabe que é ela, em criança. "É a mesma feição, a mesma expressão, o mesmo sorriso..." diz-lhe enquanto se vai aproximando dela. De repente o verão parece ter voltado com toda a força, e ela sente um calor enorme que lhe percorre o corpo. O sangue ferve, a boca seca e ela tenta por tudo concentrar-se na foto. Fala de quando foi tirada. do lugar, da idade que tinha, das primas que também estavam na festa...

Ele olha-a e fica a admirar o seu sorriso. A voz, entusiasmada, que aos olhos dele a faz parecer outra vez menina. Não fosse, a mulher que ele olha com desejo, ali bem na sua frente.... A medo, resolve que tem algo para lhe dizer, que não passará de hoje. Pensa em como vai ser cauteloso. Já imaginou a conversa várias vezes. Não quer que ela se aborreça, leve a mal e se estrague a amizade que têm..."Olha queria falar contigo. E só tenho esta conversa contigo, porque entre nós existe uma grande empatia e... É que,  é óbvio que se passa alguma coisa entre nós..."

O coração dela dispara. "Passa-se alguma coisa? e passa-se o quê?" Pergunta ela, como que para ganhar tempo.
Ele responde atrapalhado, "Nada."

Ela pergunta de novo "E o que se pode passar entre nós?"

"Nada", diz-lhe ele ainda.

"Como vês. Não se passa nada e não se pode passar nada".

Mas ele não desiste. Sabe que não se pode passar nada e questiona-a, se por acaso ela não sente algo quando se olham, quando estão juntos, quando as mãos se tocam...É um misto de sensações, estão contentes, aflitos, alegres e ao mesmo tempo, quase encurralados. Parece outra conversa atribulada e já nenhum dos dois quer isso.

No entanto,  admitir que se passa alguma coisa é para ela difícil. A situação é difícil e passível de trazer alguns problemas. Ele, que também já parece um miúdo, diz-lhe "Eu sei de tudo isso, mas também não estou para ignorar o que sinto" "Podemos ser amigos, como sempre fomos, e desfrutar da presença um do outro...ok?  e sabes fico feliz que tivemos esta conversa." Ao que ela retorquiu "Eu também. De qualquer modo iríamos ter esta conversa, mais cedo ou mais tarde, eu mesma queria falar contigo. Havia coisas para esclarecer antes que a situação se tornasse desconfortável para nós, já eram demasiadas as perguntas com os olhos"

Ele diz-lhe, que só terão de ser discretos, que é um segredo só deles, que ela sempre que precisar de desabafar o faça com ele, e que é só viver tudo o que lhes for possível viver. Ele fala com a certeza de que tudo correrá bem, e transmite-lhe a sensação de como toda a situação é simples. Ela coloca as mãos sobre os ombros dele, olha-o nos olhos e com um sorriso lindo e cheio de ternura, com o coração cheio de alegria, de forma bem calma, diz-lhe "Isto passa" ao que ele responde "Eu espero que não".

E não passou. Até hoje.

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