terça-feira, 24 de maio de 2016

Não ignorar o que estou a sentir



Normalmente nas histórias os dias correm devagar, muito devagar….e vão correndo….devagar…. Mas, nesta história os dias correm depressa, depressa, tão depressa. Eles juntos, não são donos do seu tempo, e tem de o dedicar aos outros. Vivem em permanente ansiedade, esperando um tempo para eles, ainda que escasso.

O tempo passa, mas eles permanecem apesar de terem muita urgência de se verem e nem sempre isso lhes é possível. Os dias fogem e por vezes falta o toque, o toque da mão na mão, da mão no ombro, dos lábios quentes no pescoço. Faltam os abraços apertados de quem se deseja muito. Falta o beijo da manhã, da tarde e do dia todo, falta tudo quanto se querem permitir e raras vezes acontece. Mas eles aqui estão, para lembrar que a distância entre a amizade e o amor é apenas uma linha, fininha, fininha, fininha, transponível, mutável, dinâmica e sem limite de idade. Sem horas marcadas para acontecer, sem condições que indicassem, que a amizade sincera e simples ia dar lugar a um sentimento maior, igualmente sincero e simples, que o Mundo não pode saber, porque faria desse sentimento um caos. 

Um dia, após terem estado juntos, o dia inteiro numa festa com amigos comuns, disse-lhe ele numa mensagem enviada a horas tardias "Bem sei que não vais ler isto agora, mas de qualquer forma preciso te expor meus sentimentos e os meus desejos...adorei estar contigo e é difícil olhar-te e não poder tocar-te. Seria ideal sentir o teu calor, beijar os teus lábios."

É de manhã, ao acordar, que ela se depara com esta quase declaração. O pensamento voa. Ri à toa, como se tivesse de novo quinze anos. Parecem ter voltado todas as ilusões de um primeiro amor. Há sensações, tremores, arrepios de frio alternadas com ondas de calor, palpitações e sentimentos que há muito tempo não experimentava. Como era possível estarem ambos num misto de confusão e discernimento, calmaria e paixão e tentando nunca perder orientação, mas  vivendo de forma adolescente e quase inconsequente.

Ela espreguiça-se, de forma calma e lenta, rebola pela cama e abraça o lençol e fica a olhar para o vazio. Um vazio, cheio de quase tudo o que a poderia preencher neste momento. Apenas falta a sua presença, a sua apetência e sentimento, estão ali, ela sente-o no bater do seu próprio coração. E para seu deleite, chega outra mensagem: "Dizes que sonho acordado e tens razão, pois nem dormir consigo. Não posso dizer que sinto a tua falta, pelo menos no sentido de quem realmente me falte, pois se nunca aqui estiveste, mas posso dizer que tenho necessidade de estar contigo para podermos namorar. Biju, adoro-te. Sei que são frases gastas mas, estou apaixonado. Sinto por ti uma grande paixão"

Ela sente em si própria, o olhar apaixonado que tem. A emoção é muita e os olhos brilham de felicidade, marejados de lágrimas que ela não queria que caíssem, porque está feliz. Pensa nele com ternura, carinho, paixão e desejo. Sente-se apaixonada, mas está sobretudo  agradecida. Agradecida por uma conversa atribulada, agradecida por ter existido o postal da amizade, e principalmente
pela vontade dele em "não ignorar o que estou a sentir". Tornou-se palavra de ordem, frase chave para o que os dois querem viver, mesmo proibidos pelo resto do mundo: "Não ignorar o que estou a sentir".

E não ignoram. Até hoje.





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